Cosmogonia Celta: as invasões míticas e a soberania da natureza

A Cosmogonia Celta nos apresenta uma visão única sobre a origem do mundo. Não como um evento isolado, mas como um processo vivo, marcado por conflitos, ciclos e pela profunda ligação entre natureza e divindade.

Diferente de outras tradições que buscam explicar o início do cosmos de forma linear, os celtas construíram uma narrativa onde a criação se confunde com a própria transformação da terra e de seus povos. Antes de nos aprofundarmos nesse universo, vale lembrar que diversas culturas também desenvolveram seus próprios mitos da origem do universo, cada um refletindo suas crenças e modos de enxergar o mundo.

Entre esses exemplos, podemos citar a Cosmogonia Dogon, que combina filosofia e espiritualidade em uma leitura complexa do cosmos, e a Cosmogonia Tupi-Guarani, onde a criação está ligada a um processo contínuo de renovação e equilíbrio.

No entanto, é na tradição celta que encontramos uma narrativa especialmente marcada por invasões míticas, disputas entre seres divinos e a soberania da natureza como força central. Mais do que explicar a origem do mundo, essa cosmogonia revela a própria identidade de um povo e sua relação sagrada com o território.

O mundo dos druidas: contexto e natureza da tradição celta

Para entender a Cosmogonia Celta, é crucial apreciar a natureza de sua transmissão e seus valores centrais:

  • A tradição oral e o papel dos druidas: a cultura celta era fundamentalmente oral. Os druidas, a classe sacerdotal e erudita, eram os guardiões do conhecimento, incluindo a mitologia, a lei e a história. Eles consideravam a escrita vulgar para tais assuntos sagrados. Consequentemente, os registros foram colocados por escrito apenas na Idade Média, por monges cristãos irlandeses e galeses. Isso significa que as narrativas foram, em maior ou menor grau, filtradas e influenciadas pela visão de mundo cristã, embora preservando um núcleo mitológico pagão inconfundível;
  • Uma visão animista e interconectada: o mundo celta era animista. Tudo na natureza – rios, montanhas, florestas, rochas – possuía um espírito (genius loci) e poderia ser sagrado. A terra não era um recurso, mas uma entidade viva com a qual se estabelecia uma relação. A criação, portanto, não é sobre a origem da matéria, mas sobre a imposição de uma ordem cultural e sagrada sobre uma paisagem já existente e consciente;
  • O conceito de soberania: um tema central é o da Soberania da terra, frequentemente personificada como uma deusa (Ériu, a deusa que deu nome à Irlanda – Éire). O direito de um rei governar dependia de seu casamento sagrado com esta deusa, garantindo a prosperidade e a fertilidade da terra. A narrativa das “invasões” é, em grande parte, a história de como diferentes povos conquistaram este direito.

A narrativa da criação: o Lebor Gabála Érenn e as invasões da Irlanda

A principal narrativa cosmogônica/genealógica irlandesa é o Lebor Gabála Érenn, que descreve a Irlanda sendo tomada por seis ondas de povos míticos.

O mundo antes da Irlanda: o dilúvio e os primeiros habitantes

A narrativa conecta-se com a história bíblica do Dilúvio. Cessair, uma neta de Noé, teria chegado à Irlanda antes do grande dilúvio, com um grupo de companheiros, mas todos pereceram nas águas. Esta é uma clara interpolação cristã para ligar a história irlandesa ao cânone bíblico.

Após o dilúvio, a Irlanda, uma terra virgem e selvagem, foi povoada por uma sucessão de povos:

  1. O povo de Partholón: o primeiro a chegar após o dilúvio. Eles desbravam a terra, abrem planícies e instituem a agricultura. No entanto, são dizimados por uma praga após 300 anos, e a Irlanda fica vazia novamente;
  2. O povo de Nemed: chegam depois e repetem o processo de civilização, lutando contra os temíveis Fomorianos, seres grotescos que representam as forças caóticas e destrutivas da natureza, frequentemente associados ao mar e à escuridão. Após batalhas ferozes e pestes, o povo de Nemed é disperso.

A chegada dos Deuses: os Tuatha Dé Danann

A quarta e mais famosa invasão é a dos Tuatha Dé Danann (“O Povo da Deusa Danu”). Eles são os deuses tribais da Irlanda, seres de imenso poder mágico e beleza.

  • Origem e atributos: diz-se que eles vieram das “ilhas do norte do mundo”, onde adquiriram o conhecimento das artes druídicas. Eles chegaram à Irlanda envoltos em uma “nuvem de escuridão mágica”, trazendo consigo os quatro tesouros mágicos das cidades de origem: a Lança de Lugh, a Espada de Nuada, o Caldeirão de Dagda e a Pedra de Fal (a Lia Fáil), que gritava quando o verdadeiro rei a pisava;
  • A primeira batalha de Mag Tuired: os Tuatha Dé Danann enfrentaram os Fir Bolg, os habitantes anteriores, e os derrotaram, conquistando a soberania da Irlanda. Nesta batalha, seu rei, Nuada, tem o braço cortado e, por ser imperfeito, precisa abdicar temporariamente;
  • A segunda batalha de Mag Tuired (a grande batalha): este é o clímax épico da mitologia irlandesa. Os Tuatha Dé Danann, agora liderados pelo rei recuperado – Nuada e pelo jovem e brilhante deus Lugh Lamhfada (o “deus de todas as artes”), enfrentam seus inimigos arquetípicos: os Fomorianos, liderados pelo terrível Balor do Olho Mau. A batalha é uma luta cósmica entre a ordem (os Tuatha Dé) e o caos primordial (os Fomorianos). Lugh mata Balor com uma funda, e os Tuatha Dé Danann saem vitoriosos, estabelecendo firmemente seu domínio sobre a Irlanda e inaugurando uma era de prosperidade.

A chegada dos humanos: os Milesianos e o pacto com os Deuses

A última invasão é a dos Milesianos (os “Filhos de Míl”), considerados os ancestrais dos gaélicos. Eles representam a humanidade histórica. Ao chegarem à Irlanda, confrontam os Tuatha Dé Danann. Estes, usando sua magia, criam uma tempestade para impedir seu desembarque, mas os Milesianos conseguem superar o desafio.

Após negociações e conflitos, chega-se a um acordo: a Irlanda será dividida. Os Milesianos ficarão com o mundo da superfície, o mundo visível e físico. Os Tuatha Dé Danann se retiram para o Outro Mundo (o Sídhe), que coexiste com o mundo humano, habitando montes, colinas e fortalezas subterrâneas.

Eles se tornam as “fadas” ou “o bom povo” do folclore posterior. A criação do mundo, como os humanos o conhecem, está, portanto, completa: uma terra compartilhada entre a realidade tangível e um reino divino, invisível, mas sempre presente.

Análise e significado: a terra, o pacto e a natureza do divino

A Cosmogonia Celta, através desta narrativa de invasões, codifica uma visão de mundo única e poderosa:

  • Cosmogonia como história e geografia sagrada: diferente de outras tradições que ocorrem em um tempo mítico fora da história, a criação celta é a própria história do povo e da paisagem. Cada batalha, cada reinado, explica a geografia da Irlanda, o nome de um lugar (através dos Dindsenchas, os “Lore of Places”), e a origem das instituições sociais. A criação é um processo contínuo de nomeação e domínio cultural;
  • A relação dialética com o caos (Fomorianos): os Fomorianos não são meramente “maus”. Eles são uma força primordial e necessária. Eles representam os aspectos selvagens, perigosos e indomados da natureza, com os quais mesmo os deuses devem negociar e lutar. A ordem não os extermina, mas os mantém à distância, em um equilíbrio tenso. Este conflito eterno reflete a realidade de uma vida dependente de, mas também à mercê, de um ambiente poderoso;
  • Deuses falíveis e não onipotentes: os Tuatha Dé Danann são imensamente poderosos, mas não são onipotentes ou imortais no sentido estrito. Eles podem ser feridos, enganados e derrotados. Eles são uma raça divina, mas com características profundamente humanas: ciúmes, paixões, vícios e uma necessidade clara de se provar através do combate e da sabedoria;
  • A coexistência dos mundos: a solução final da narrativa – a divisão entre o mundo humano e o Sídhe – é brilhante. Ela estabelece uma visão de mundo não dualista. O divino não está no céu, mas dentro da terra. O sagrado não é transcendente, mas imanente. Toda a paisagem celta é potencialmente uma porta de entrada para o Outro Mundo, tornando a vida uma experiência constantemente permeada pelo mistério e pelo potencial do encontro com o divino.

Conclusão

A Cosmogonia Celta, com sua ênfase na terra, na soberania e no ciclo de conquistas, oferece uma visão profundamente enraizada e mágica da criação.

O mundo não foi criado por um ato de vontade distante, mas foi conquistado, amado e nomeado à existência por uma sucessão de povos divinos e humanos, em uma luta eterna para impor a ordem cultural sobre o caos natural. É uma narrativa que explica não o “como” do universo físico, mas o “porquê” de um povo pertencer a uma terra específica e os termos sagrados desse pertencimento.

Esta visão de um mundo vivo, interconectado e habitado por divindades acessíveis nas colinas e florestas, representa um contraste marcante com as cosmogonias imperialistas do Mediterrâneo e o fatalismo do Norte.

Em contraste, as cosmogonias africanas, como a Cosmogonia Iorubá e a Cosmogonia Dogon, enfatizam a criação a partir do barro, a palavra divina e a complexidade astronômica.

Continue explorando como diferentes culturas explicam a origem do universo e até a próxima!

Que a luz do amor seja a guia de todos os caminhos, em todos os momentos, em todas as situações, com todas as pessoas. E que o Amor nos conduza à Paz!


Referências bibliográficas

REES, Alwyn; REES, Brinley. Celtic Heritage: Ancient Tradition in Ireland and Wales. Thames & Hudson, 1961.

Estudo seminal que analisa os padrões e estruturas dos mitos celtas irlandeses e galeses, incluindo o Lebor Gabála Érenn. 

GREEN, Miranda J. The Celtic World. Routledge, 1995.

Obra de referência abrangente que oferece contexto arqueológico, histórico e mitológico.

MACKILLOP, James. A Dictionary of Celtic Mythology. Oxford University Press, 2004.

Indispensável para consultar nomes, lugares e conceitos específicos da mitologia celta de forma precisa.

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