A busca humana pelas origens se expressa através de duas grandes narrativas: a Cosmogonia, que, por meio de mitos e símbolos, busca o significado profundo da existência, e a Cosmogênese, que, através da ciência, investiga os processos físicos do universo.
Deixando para trás as batalhas cósmicas apresentadas na Cosmogonia Babilônica, nossa viagem agora nos leva às margens do poderoso Rio Nilo, pois é hora de explorarmos a Cosmogonia Egípcia.
Aqui, a criação não será um ato de violência ou engenharia, mas um processo de autogeração, manifestação luminosa e poder da palavra. Enquanto Marduk precisou vencer um monstro para esculpir o mundo, no Egito, o deus-sol simplesmente emergiu, pronunciou nomes e, pela força de sua vontade, a realidade veio a ser.
Neste artigo vamos explorar uma das mais complexas e duradouras cosmogonias da história. Diferente de outras tradições, o Egito não possuía uma única narrativa canônica, mas várias versões que coexistiam, centradas em suas grandes cidades-templo: Heliópolis, Hermópolis e Mênfis.
Veremos como, independentemente do centro de culto, a criação era vista como um ato contínuo de sustentação da ordem (Maat) contra as forças do caos (Isfet), um drama cósmico que se repetia a cada nascer do sol. Vamos entrar agora em um mundo onde a criação é um fenômeno solar, onde deuses surgem de um lótus e onde a própria palavra possui um poder criativo absoluto.
O contexto do Nilo: geografia, ciclicidade e a luta pela ordem
Para entender a Cosmogonia Egípcia, é essencial compreender o ambiente que a moldou.
O Nilo e a criação perpétua
Ociclo anual do Nilo – sua enchente, que fertilizava o solo com o lodo negro (a “Terra Negra”, Kemet), seguida pela vazante e pelo renascimento da vida – era o espelho do processo criativo.
O mundo não foi criado uma vez, mas renasce a cada dia. Isso levou a uma visão cíclica do tempo e da criação, centrada na figura do deus-sol, que morre no horizonte e renasce todas as manhãs.
Maat versus Isfet
O conceito central da ordem cósmica e social era Maat, representando a verdade, justiça, harmonia e a ordem estabelecida. Sua antítese era Isfet, o caos, a desordem e a falsidade.
A criação era o ato inicial de estabelecer Maat, e a função do faraó e dos deuses era mantê-la, combatendo continuamente as forças de Isfet, que sempre ameaçavam retornar, como a escuridão ou a seca.
Centros de culto e suas versões
A religião egípcia era politeísta e não dogmática. Diferentes cidades desenvolviam suas próprias teologias para explicar a criação, frequentemente elevando seu deus local à posição de demiurgo (criador).
As três versões principais são:
- A Teologia Heliopolitana (de Heliópolis): focada no deus-sol Atum e na Enéade (nove deuses);
- A Teologia Hermopolitana (de Hermópolis): focada nas forças primordiais impessoais, a Ogdóade (oito deuses);
- A Teologia Menfita (de Mênfis): uma versão mais filosófica, que atribui a criação ao deus Ptah, através do coração (pensamento) e da língua (palavra).

As narrativas da criação: Heliópolis, Hermópolis e Mênfis
A riqueza da Cosmogonia Egípcia reside justamente na sua diversidade interna. Vamos explorar as três versões principais: Heliópolis, Hermópolis e Mênfis.
1. Heliópolis: a autogeração solar e a Enéade
Esta é a versão mais conhecida e influente da cosmogonia egípcia.
O estado primordial
No início, existiam apenas as águas primordiais de Nun, um oceano caótico, escuro e sem limites, que continha em si o potencial para toda a vida.
O primeiro ato (o surgimento de Atum-Rá)
Do seio de Nun, emergiu um monte primordial (a “Colina Primordial”), prefigurando as ilhas que reapareciam após a cheia do Nilo. Sobre este monte, o deus Atum (o “Totalidade”, o “Não-Manifestado”) surgiu por autocriação. Ele é frequentemente associado e fundido com Rá, o deus-sol, tornando-se Atum-Rá, o sol criador.
A criação através da procriação
Sozinho, Atum deu início à criação gerando o primeiro casal divino. Dependendo da versão, ele os criou através de masturbação (símbolo da autossuficiência criativa) ou cuspindo (associado à magia Heka):
- Shu: o deus do ar seco e da luz;
- Tefnut: a deusa da umidade e da ordem.
A estruturação do cosmos
Shu e Tefnut, por sua vez, geraram:
- Geb: o deus da Terra;
- Nut: a deusa do Céu.
Nut e Geb se uniram em um abraço tão forte que não havia espaço entre eles. Seu pai, Shu, o ar, separou-os, erguendo Nut para formar a abóbada celeste e fixando Geb como a terra plana abaixo. Esta imagem torna-se o ícone da geografia cósmica egípcia.
A Enéade completa
Nut e Geb geraram duas gerações de deuses: Osíris, Ísis, Seth e Néftis, completando os nove deuses da Enéade de Heliópolis. A criação do mundo físico é, assim, uma genealogia divina que estrutura o universo.
2. Hermópolis: as forças primordiais e a Ogdóade
Na cidade de Hermópolis (Khemenu, “a Cidade dos Oito”), a criação era entendida de forma mais abstrata.
A Ogdóade
Antes dos deuses personificados, existiam quatro pares de forças primordiais e impessoais, que juntos formavam a Ogdóade. Cada par consistia em um princípio masculino e feminino:
- Nun e Naunet: as águas primordiais (o abismo);
- Heh e Hauhet: o infinito (o espaço sem fim);
- Kek e Kauket: a escuridão;
- Amun e Amaunet: o oculto, o invisível (o ar/vento).
O Ovo Cósmico e o Grito do Sol
Estas oito forças interagiram nas águas de Nun, e sua energia se uniu com imensa força para formar o Ovo Cósmico na Colina Primordial. Deste ovo, emergiu o deus-sol (Rá ou um deus-sol criança).
Em algumas versões, foi o grito primordial do sol ao nascer que quebrou o silêncio do caos e deu início à criação, estabelecendo o som e a vibração como forças criativas.
3. Mênfis: a criação pelo pensamento e pela palavra de Ptah
A teologia menfita, preservada na “Pedra de Shabaka”, é notavelmente sofisticada e filosófica:
Ptah, o Criador Supremo
Aqui, o deus Ptah, o artesão divino, patrono dos artífices, é o criador supremo. Ele é descrito como o “coração e a língua” da Enéade.
O Mecanismo da Criação
Ptah cria primeiro pela concepção no coração (ab), o órgão do pensamento, da inteligência e da vontade.
Ele concebe mentalmente os conceitos de todos os seres e deuses (incluindo Atum e a Enéade). Em seguida, ele os dá à existência através do comando verbal de sua língua. O que ele pensa em seu coração, sua língua pronuncia e torna realidade.
Uma Teologia Logocêntrica
Esta ideia de criação pela palavra (“Logos”) é espantosamente similar a conceitos que surgiriam muito depois em outras tradições.
Ptah não encontra o mundo pré-existente; ele o cria do nada pela força do pensamento e da palavra, estabelecendo um paradigma de criação puramente intelectual e resultante da vontade.

Análise e significado: ordem, ciclicidade e o poder da palavra
A Cosmogonia Egípcia, em todas as suas versões, revela uma visão de mundo coerente e profundamente ligada à sua realidade:
- A criação como um ato contínuo: o mito da criação não era uma história sobre um passado distante. Ele era reatualizado a cada nascer do sol, quando Rá vencia a serpente do caos, Apep, e emergia do submundo, reafirmando Maat. A própria existência do faraó era um pilar desta ordem cósmica;
- A unidade na diversidade: a capacidade do sistema religioso egípcio de absorver e sincronizar versões diferentes (por exemplo, identificando Ptah com Nun, ou Atum com Rá) mostra uma mentalidade henoteísta, onde diferentes deuses podem ser vistos como manifestações de um único princípio criador supremo;
- O legado do pensamento Menfita: a teologia de Ptah representa um dos pontos mais elevados do pensamento religioso no mundo antigo. Ela antecipa ideias filosóficas sobre o poder do Logos (a criação pela palavra) e estabelece a criação como um ato de conhecimento e comunicação, e não apenas de força física;
- Contraste com a Mesopotâmia: enquanto a criação babilônica (Enuma Elish) é um ato de violência externa (a batalha), a criação egípcia é um processo de emanação interna (autogeração, pensamento, palavra). Enquanto a humanidade babilônica é criada do sangue de um deus rebelde para ser escrava, no Egito a humanidade é originada das lágrimas de alegria de Rá (um jogo de palavras entre “lágrima” e “humanidade” em egípcio), sugerindo uma origem mais benevolente.
Conclusão
A Cosmogonia Egípcia, com seus múltiplos centros de origem e sua ênfase nos ciclos eternos de regeneração – simbolizados pela jornada noturna e renascimento diário do sol – nos apresenta um universo onde a ordem cósmica (Maat) não é um estado estático, mas um equilíbrio dinâmico e precário.
Ela precisa ser constantemente restaurada por meio do ritual e da ação correta. O caos (Isfet) não é um inimigo pessoal, mas uma força natural que ameaça a harmonia.
Entre os diversos mitos da origem do universo, essa visão contrasta fortemente com a Cosmogonia Zoroastriana, que transforma o mal em um princípio espiritual consciente e opositor da luz. Aqui, a criação passa a ser compreendida como um campo de escolha moral, no qual a humanidade participa ativamente do destino cósmico.
Continue explorando outras cosmogonias aqui no blog e até a próxima!
Que a luz do amor seja a guia de todos os caminhos, em todos os momentos, em todas as situações, com todas as pessoas. E que o Amor nos conduza à Paz!
Referências bibliográficas
1. HORNUNG, Erik. Conceptions of God in Ancient Egypt: The One and the Many. Cornell University Press, 1982.
Explora brilhantemente as diferentes e aparentemente contraditórias teologias (Heliópolis, Memphis etc.) e o conceito de pluralidade na unidade.
2. ASSMANN, Jan. The Mind of Egypt: History and Meaning in the Time of the Pharaohs. Harvard University Press, 2003.
Fornece o contexto intelectual e cultural mais amplo, explicando conceitos como Maat e a relação entre mito e estado.
3. Lichtheim, Miriam. Ancient Egyptian Literature, Volume I: The Old and Middle Kingdoms. University of California Press, 1973.
Inclui traduções de textos das Pirâmides e dos Sarcófagos, onde estão registrados os mais antigos mitos cosmogônicos.

