Padrões Cosmogônicos da América do Norte: o corvo, a emergência e o grande mistério

Das centenas de nações originárias da América do Norte, nasce uma visão extraordinária sobre a criação do mundo. Longe de uma narrativa unificada, ao explorarmos os padrões Cosmogônicos da América do Norte, encontramos uma tapeçaria de extraordinária diversidade, tão variada quanto os ecossistemas do continente – das florestas do Nordeste às planícies centrais, dos desertos do Sudoeste às costas temperadas do Noroeste Pacífico.

Neste artigo, não exploraremos um único “mito de criação”, mas padrões Cosmogônicos recorrentes da América do Norte que emergem desta rica pluralidade.

Vamos conhecer a figura do Criador-Trapaceiro (Trickster), a jornada de Emergência dos Mundos Subterrâneos e a profunda noção de um Parentesco Cósmico com toda a vida.

Prepare-se para conhecer uma visão onde a criação é, frequentemente, um ato de astúcia, uma jornada de purificação ou um tecido de relações sagradas.

O criador-trapaceiro: o corvo, o coiote e a astúcia que molda o mundo

Em muitas tradições, a criação do universo não é obra de um deus solene e onipotente, mas de um ser ambíguo, brincalhão e astuto: o Trapaceiro (Trickster).

O corvo do noroeste pacífico

Para os povos do Noroeste Pacífico (como os Tlingit, Haida e Tsimshian), o Corvo (Yehl ou We-gyet) é uma figura central. Em um mundo inicial de escuridão ou de águas primordiais, o Corvo, movido por fome, curiosidade e senso de humor, rouba a luz (o sol, a lua e as estrelas) de um chefe poderoso que a guardava, libertando-a para o mundo.

Ele também liberta a água doce, descongela os rios e modela os primeiros seres humanos. Sua criação é um ato de transformação e redistribuição, não de ex nihilo (criação a partir do nada).

O coiote das planícies e do sudoeste

Nas tradições de muitos povos das Planícies e do Sudoeste (como os Navajo, vários povos Pueblo e as nações da região de Salish), o Coiote desempenha um papel similar. Ele é o criador que também é o palhaço, o herói que é também o vilão. Ele estabelece costumes ao mesmo tempo que os quebra, traz o fogo e a morte, e em suas travessuras muitas vezes define, por acidente ou por engano, a maneira como o mundo funciona.

Significado

O Trapaceiro (Trickster) introduz uma visão não dogmática da criação. A ordem cósmica não é perfeita ou estática; é fluida, um tanto caótica, e moldada por forças que estão dentro da própria natureza – incluindo a astúcia, o desejo e até a travessura. A criação é um processo contínuo de ajuste e interação.

A emergência: a jornada através dos mundos subterrâneos

Um dos padrões mais difundidos, especialmente entre os povos do Sudoeste norte-americano (como os Navajo / Diné, Hopi, Zuni e vários povos Pueblo), é o mito da emergência.

A narrativa

O povo (ou os seres pré-humanos) inicialmente vive em um mundo subterrâneo, frequentemente escuro, confinado e por vezes imperfeito. Através de um vazio (uma abertura como um caule de junco ou uma árvore cósmica), e guiados por figuras divinas ou de poder (como a Mulher-Aranha para os Navajo), eles ascendem sequencialmente através de uma série de mundos (geralmente três ou quatro).

Cada ascensão é precipitada por uma crise, um desequilíbrio moral (como incesto, conflito ou arrogância) ou uma catástrofe (como uma inundação). O mundo atual é o “Quarto Mundo” (ou o quinto), um nível mais evoluído e estável alcançado após essas jornadas de aprendizado e purificação.

Significado

Esta cosmogonia é profundamente cíclica e moral. A criação não é um evento único no passado, mas uma jornada contínua de evolução espiritual e comunitária. O mundo atual é um estágio em um processo de longo prazo, e a condição humana é definida por essa história de migração sagrada e pelas lições aprendidas (ou não) nos mundos anteriores. É uma visão que conecta geografia, ética e identidade de forma intrincada.

Parentesco cósmico: a Terra viva e o grande mistério

Para além de narrativas específicas, uma filosofia cósmica permeia muitas tradições norte-americanas: a de um parentesco radical com toda a criação.

  • Wakan Tanka e o grande espírito: para os povos das Planícies, como os Lakota (Sioux), Cheyenne e Crow, Wakan Tanka (o Grande Espírito / Mistério) não é um deus antropomórfico distante, mas uma força sagrada, impessoal e onipresente que se manifesta em todas as coisas – a rocha, a árvore, o vento, o búfalo. A criação é a manifestação deste mistério. O mito do Cachimbo Sagrado (Chanunpa), dada ao povo por uma figura como a Mulher Búfalo Branco, selou este pacto de parentesco entre o céu, a terra e todos os seres vivos.
  • A Terra como mãe e ser vivo: em mitos de povos do Nordeste Florestal, como a Confederação Iroquesa (Haudenosaunee), a narrativa da “Mulher que Caiu do Céu” é fundamental. Ela cai de um mundo celestial, sobre as costas de uma tartaruga marinha (ou de uma lontra) – onde a terra é colocada, formando a Ilha da Terra (a América do Norte). A Terra, portanto, é literalmente sustentada por um ser vivo e é, ela mesma, um corpo vivo do qual todos fazemos parte.

Significado

Esta visão funda uma ética ecológica profunda. Se a rocha é seu parente e o rio é seu avô, explorá-los brutalmente é um ato de violência familiar. O humano não tem domínio sobre a natureza, mas uma responsabilidade de cuidado dentro de uma rede de relações recíprocas.

Análise e significado: contrastes e convergências

Os padrões norte-americanos oferecem contrastes e convergências marcantes com as outras cosmogonias das Américas:

Contraste com Astecas, Maias e Incas

Aqui não há um estado imperial centralizando e ritualizando o mito. As narrativas Asteca, Maia e Inca são mais descentralizadas, adaptáveis e intimamente ligadas a ecossistemas locais específicos. A ênfase está menos em calendários complexos, arquitetura monumental e sacrifício estatal, e mais na sabedoria ecológica, na história oral da comunidade e no equilíbrio dinâmico.

Convergência com os Tupi-Guarani

Assim como na busca pela Terra Sem Mal, há uma forte ênfase na jornada espiritual (a Emergência dos Mundos Subterrâneos) e na sacralidade da terra. No entanto, em comparação com a Cosmogonia Tupi-Guarani, as visões norte-americanas são geralmente menos focadas em um destino geográfico final específico e mais na manutenção do equilíbrio no lugar onde se está.

Convergência principal com todas as tradições originárias

O núcleo comum é a ideia de que o mundo é vivo, sagrado e inteligente, e que os humanos são parte integrante – e não senhores – deste tecido vivo. A criação é um processo contínuo de relação.

Conclusión

A exploração dos padrões Cosmogônicos da América do Norte nos revela um universo de profunda inteligência ecológica, humor cósmico e parentesco radical. É uma visão que desafia as noções ocidentais de criação como um evento singular e hierárquico, substituindo-a por processos de transformação astuta, jornadas de purificação coletiva e uma rede infinita de relações sagradas.

Esta diversidade de vozes e visões nos lembra que o pensamento originário do conjunto do continente americano é impossível de reduzir a uma única narrativa. Ele é, em si, um cosmos plural.

As cosmogonias são fascinantes, não é verdade? Se você quer se aprofundar nessa viagem extraordinária, que tal conferir outro artigo onde explico melhor o que é Cosmogonia? Até a próxima!

Que la luz del amor sea la guía en todos los caminos, en todo momento, en todas las situaciones, con todas las personas. ¡Y que el Amor nos lleve a la Paz!


Referencias bibliográficas

1. BURKHART, Brian Yazzie. Indigenizing Philosophy Through the Land: A Trickster Methodology for Decolonizing Environmental Ethics and Indigenous Futures. Michigan State University Press, 2019.

Oferece uma análise profunda da filosofia e epistemologia indígena norte-americana, incluindo o papel do Trickster.

2. DELORIA, Vine, Jr. God is Red: A Native View of Religion. Fulcrum Publishing, 1994.

Obra clássica e fundamental que contrasta a visão de mundo nativo-americana (espacial, cíclica, terrena) com a tradição judaico-cristã (temporal, linear), explicando conceitos como o sagrado na natureza.

3. ZOLBROD, Paul G. Diné Bahane’: The Navajo Creation Story. University of New Mexico Press, 1984.

Tradução e estudo do principal mito de Emergência navajo, uma das narrativas mais completas e complexas deste gênero.

4. ERDOES, Richard & ORTIZ, Alfonso (Eds.). American Indian Myths and Legends. Pantheon Books, 1984.

Antologia acessível e abrangente que reúne mitos de diversas nações norte-americanas, incluindo vários mitos de criação e do Trickster.

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