The cosmogonia Maori apresenta uma visão do universo marcada pelo parentesco, pela ancestralidade e pela profunda conexão entre todos os seres. Em Aotearoa, a Terra da Grande Nuvem Branca, a criação do mundo está ligada à separação de Ranginui, o Pai Céu, e Papatūānuku, a Mãe Terra, cujo abraço mantinha seus filhos na escuridão.
Para que a luz alcançasse o mundo, seus descendentes precisaram romper essa união, dando origem a uma nova ordem cósmica. Essa narrativa também revela o princípio do Whakapapa, a genealogia que estabelece os vínculos entre deuses, humanos, animais, plantas e demais elementos da existência.
Assim, a cosmogonia Maori reúne uma complexa narrativa sobre origem, parentesco e organização do universo. Nela aparecem figuras como Tāne Mahuta, associado às florestas, e Tāwhirimātea, relacionado aos ventos e às tempestades, além de outros descendentes de Rangi e Papa.
A separação do Pai Céu e da Mãe Terra não representa apenas o surgimento da luz e do espaço: estabelece também uma estrutura de relações que conecta diferentes formas de vida.
O conceito de Whakapapa expressa justamente essa compreensão de que cada ser possui um lugar dentro de uma grande linhagem cósmica.
O contexto Maori: Whakapapa, Mana e a chegada a Aotearoa
Para entender a Cosmogonia Maori, é essencial compreender os pilares de sua cultura, profundamente ligados à terra e aos ancestrais:
O Whakapapa – a espinha dorsal da realidade
Whakapapa é muito mais que uma genealogia; é um princípio cosmológico. É a linhagem que conecta todas as coisas, desde os deuses primordiais até uma samambaia específica na floresta, passando por cada ser humano. Conhecer o próprio Whakapapa é entender o próprio lugar no universo e a relação de parentesco com tudo que existe. A própria narrativa da criação é uma recitação de Whakapapa.
Mana e Tapu – poder e restrição
Mana é a força vital espiritual, o prestígio e o poder efetivo que flui através do Whakapapa. Pode ser herdado ou conquistado. Tapu é o estado de restrição sagrada que protege o Mana. Violar o Tapu (através de um ato inadequado) pode trazer desequilíbrio e desgraça. A criação do mundo foi um processo de estabelecer e distribuir Mana e Tapu.
A chegada a aotearoa
A Cosmogonia Maori está intrinsecamente ligada à sua história de migração. Por volta do século XIII, grandes canoas oceânicas (waka) partiram de Hawaiki (a pátria espiritual polinésia) e chegaram a Aotearoa. As narrativas de criação fornecem a base divina para a ocupação e o kaitiakitanga (guardião) desta nova terra por esses descendentes dos deuses.

A narrativa da criação: do vazio ao drama da separação
A Cosmogonia Maori é uma sequência de estágios de emergência, do mais sutil ao mais concreto, culminando em um evento dramático fundamental.
Te Kore: o vazio potencial e a emergência da consciência
A criação começa não com a matéria, mas com a potencialidade. Uma sequência de estágios de Te Kore (o Vazio, a Escuridão) se desdobra: Te Kore-tua-tahi (O Vazio Primeiro), Te Kore-tua-rua (O Vazio Segundo), e assim por diante. Deste vácuo potencial, emerge a primeira centelha de consciência, o desejo de existir. Deste desejo, surgem Ranginui (o Céu, o Masculino) e Papatūānuku (a Terra, a Feminina).
O abraço primordial e o sofrimento dos filhos
Rangi e Papa surgiram entrelaçados em um abraço amoroso e apertado. Entre eles, na escuridão úmida e sufocante, nasceram seus mais de 70 filhos divinos. Estes filhos eram os atuais deuses que personificavam as forças da natureza, como:
- Tāne Mahuta: deus das florestas, das aves e dos insetos.
- Tāwhirimātea: deus dos ventos e das tempestades.
- Tangaroa: deus dos oceanos e de todos os seres aquáticos.
- Rongo-mā-Tāne: deus da agricultura e das plantas cultivadas.
- Haumia-tiketike: deus dos alimentos silvestres não cultivados.
- Tūmatauenga: deus da guerra, dos conflitos e da humanidade.
Estes deuses viviam na escuridão perpétua, lamentando sua condição. Eles ansiavam por espaço, por luz e por poder manifestar suas próprias naturezas.
A grande discussão e o ato da separação
Os filhos debateram o que fazer. Alguns, como Tūmatauenga (a Guerra), defendiam matar seus pais. Outros temiam essa solução radical. Foi Tāne Mahuta (a Floresta) quem propôs a solução: separá-los, empurrando Rangi para o alto e fixando Papa abaixo.
Um por um, os deuses tentaram e falharam. Rongo (a Paz) não conseguiu. Haumia (a Planta Silvestre) não conseguiu. Tangaroa (o Oceano) não conseguiu. Tūmatauenga (a Guerra) não conseguiu. Então, Tāne Mahuta se posicionou de cabeça para baixo sobre sua mãe e, com suas poderosas pernas (as montanhas e as colunas da floresta), começou a empurrar com uma força colossal. Com um gemido de dor e angústia, Rangi e Papa foram separados. A luz (Te Ao Mārama) inundou o espaço entre eles pela primeira vez.
As consequências: conflito e ordem
A separação, embora necessária, foi um ato de violência cósmica que desencadeou consequências:
- A fúria de Tāwhirimātea: o deus dos ventos, que havia se oposto à separação, ficou furioso. Ele seguiu seu pai para os céus e desencadeou terríveis tempestades e tufões sobre seus irmãos, forçando Tangaroa a recuar para o oceano e Haumia a se esconder na terra.
- A ordem do mundo: apesar do conflito, uma nova ordem surgiu. Com espaço e luz, os deuses puderam povoar seus domínios. Tāne criou as florestas e, segundo muitas narrativas, deu forma ao primeiro homem a partir da terra, antes de modelar a primeira mulher a partir da argila vermelha de Papa. Tūmatauenga (deus da guerra, dos conflitos e da humanidade), por não sido derrotado por Tāwhirimātea (deus dos ventos e tempestades) tornou-se o patrono da humanidade, ensinando-a a caçar, a guerrear e a dominar o mundo natural.
Análise e significado: um universo de parentesco e dever
A Cosmogonia Maori revela uma visão de mundo relacional, ética e ecologicamente consciente.
- A criação como um ato de separação necessária: diferente de muitas tradições onde a criação é uma vitória sobre um monstro do caos, aqui o “inimigo” é um amor excessivo e asfixiante. A ordem surge não da destruição de um mal, mas da dolorosa, mas vital, criação de espaço para a individuação e a vida.
- A ética do Kaitiakitanga (Guardião): como todos os seres humanos são descendentes dos deuses e, por extensão, de Rangi e Papa, a terra (Papatūānuku) é literalmente a mãe de todos. Isso estabelece o kaitiakitanga (o guardião) não como uma escolha, mas como um dever familiar sagrado. Os humanos são guardiões de sua parente, a Terra, e devem protegê-la.
- A universalidade do sofrimento e do conflito: o mito não apresenta uma idade de ouro sem conflitos. O sofrimento (a escuridão dos deuses, a dor da separação) e o conflito (a guerra entre os irmãos) são inerentes à própria estrutura da realidade. A sabedoria está em navegar por estas forças, não em negá-las.

A voz da Polinésia: ressonâncias e variantes
A narrativa Maori é uma das expressões mais elaboradas de um tronco mitológico comum a todo o povo polinésio.
No Havaí, por exemplo, a criação também emerge de uma escuridão primordial (Pō), com o deus Kāne desempenhando um papel central como criador da luz, da água e da vida, enquanto a separação do Céu (Wakea) e da Terra (Papa) é um tema igualmente fundamental, porém com nuances próprias. No Tahiti encontramos a figura de Ta’aroa, um deus-caranguejo que quebra sua concha cósmica para formar o universo.
Embora as personagens e ênfases variem – refletindo os diferentes ambientes das várias ilhas e suas histórias sociais – temas comuns permeiam a região: a ordem que emerge do caos, a importância da genealogia (whakapapa) como princípio estruturador, e a sacralização da natureza.
A versão Maori, com seu drama familiar intenso e sua estruturação filosófica única, nos oferece uma lente poderosa para apreciar a riqueza de todo o pensamento cosmogônico polinésio.
Conclusion
A Cosmogonia Maori nos apresenta um universo nascido do amor e da dor, estruturado pela genealogia e sustentado pelo dever de cuidado. É uma visão onde a humanidade não é senhora da criação, mas parte integrante de uma vasta família cósmica, com responsabilidades sagradas para com seus pais divinos, Rangi e Papa, e todos os seus irmãos não-humanos.
A separação primordial não foi um rompimento, mas a criação de um espaço de relação, onde o lamento de Rangi ainda cai como o orvalho da manhã e o calor de Papa ainda emana das fontes termais de Aotearoa.
Bem, cada cosmogonia é um universo em si mesma, um sistema completo de significado que orienta, conforta e desafia seus povos. Juntas, elas formam um patrimônio imaterial da humanidade, um testemunho diverso e profundo de nosso espanto perante o mistério da origem.
Vale a pena explorar outras Cosmogonias também, como a Celta, a Egípcia, a Copta e a Aborígene Australiana.
A pergunta permanece a mesma: “De onde viemos?”
Mas as respostas continuam a evoluir, seja no altar, no laboratório ou no coração humano que, maravilhado, continua contemplando o céu estrelado.
May the Light of Love be the guide of all paths, at all times, in all circumstances, with all the people. And may Love foster Peace!
Bibliographical references
1. BEST, Elsdon. Maori Religion and Mythology. Museum of New Zealand Te Papa Tongarewa, 1924.
Obra enciclopédica e fundamental, baseada em pesquisa extensiva com especialistas Maori (tohunga) no final do século XIX e início do século XX.
2. HENARE, Manuka. “Tapu, Mana, Mauri, Hau, Wairua: A Maori Philosophy of Vitalism and Cosmos.” In Indigenous Traditions and Ecology (ed. Grim), 2001.
Artigo acadêmico que explora profundamente os conceitos filosóficos centrais da cosmovisão Maori e sua relação com a criação.
3. ROYAL, Te Ahukaramū Charles. “Whakapapa: A Maori Way of Knowing and Being.” Te Kaharoa, 2012.
Escrito por um renomado erudito Maori, este trabalho explica o conceito de Whakapapa como a base para todo o conhecimento, identidade e cosmologia.
4. REED, A. W. Treasury of Maori Folklore. A.H. & A.W. Reed, 1963.
Coletânea acessível e popular de mitos e lendas Maori, incluindo várias versões das narrativas da criação, muito útil para um primeiro contato com as histórias.


